Depois de nos deixar morrendo de vontade de provar doces à base de caju, bolo de macaxeira e o pé-de-moleque do Nordeste, a Adriana continua seu delicioso relato sobre os sabores sergipanos.
Outra iguaria tradicional vendida nos boxes do Mercado Albano Franco é o amendoim cozido, vendido a R$ 1 o litro. Cozido? Sim, cozido!
A incredulidade e a desconfiança foram minhas primeiras reações ao pegar a fava do amendoim e observar que ela era meio mole e úmida. Não sou muito chegada a amendoim, o Fernando sabe, mas fui obrigada a experimentar. Não gostei, o que tinha dentro da casca molenga parece-me um feijão estranho, enrugado, meio cru e salgado demais.
Mas o tal amendoim cozido com casca e tudo faz muito sucesso pela cidade. Por onde se anda, há gente vendendo o referido tira-gosto. Inclusive na praia e nos bares, onde a pessoa compra dos ambulantes que passam pela rua para acompanhar a cerveja gelada que, aliás, é barata para os padrões paulistanos. Uma garrafa de 600 ml sai por no máximo, R$ 3,50, nos restaurantes mais caros.
Entre as barracas que vendem farinhas e castanhas no Albano Franco, como o Box do Fernando, é comum encontrar os ingredientes para preparar o acarajé.
Talvez pela proximidade da capital baiana (cerca de 340 km), o quitute à base de feijão-fradinho é febre em Aracaju. Vende-se o bolinho unitário ou em pequenas porções, inclusive em bares da orla.
Na parte do mercado onde estão localizados os boxes de carnes e pescados, tive uma desagradável surpresa: nada é vendido com refrigeração. Aves, peixes, postas, camarões, arraias, cortes bovinos, caprinos e suínos são expostos diretamente nas bancadas de azulejo, sem nenhum gelo por perto. Tudo à temperatura ambiente, com moscas voejando por cima, inclusive. Soube que a Vigilância Sanitária de lá luta para mudar a situação, mas esbarra em uma série de dificuldades. Não tive tempo nem oportunidade de apurar melhor os fatos, mas acabei ficando mal impressionada.
O gosto por carnes frescas, recém-abatidas, faz sobreviver a venda de animais vivos no mercado, como aves, bodes, cabritos e, obviamente, caranguejos, crustáceo pelo qual o aracajuano tem predileção.
Há inclusive um local em Aracaju chamado de Passarela do Caranguejo, na praia de Atalaia, que concentra diversos bares e restaurantes nos quais o caranguejo é a atração principal.
Nessas horas, vejo que não nasci para ser crítica de gastronomia, uma vez que tenho meus preconceitos e pudores em relação à comida. Passei longe dos caranguejos e pratos à base do crustáceo, como pastéis e bolinhos. Fiquei receosa em passar mal, uma vez que uma das minhas companheiras de viagem teve uma forte reação alérgica ao bichinho. Uma dica que me deram foi experimentar primeiro só uma patinha e dar um tempo. Se a garganta começar a coçar, é sinal de alergia. Se nada acontecer, sinal verde. Na dúvida, não me arrisquei.
Além do caranguejo avermelhado, alguns restaurantes e bares servem um azulado, chamado de guaiamum. Em certos quiosques de praia e restaurantes de Aracaju, é comum ver gaiolas com guaiamuns alimentados à base de ração, para o cliente escolher qual vai para a panela. Ô dó!
Sugestão do chef:
Atravessando a praça ao lado do Mercado Albano Franco, ficam os outros dois mercados que integram o Mercado Central de Aracaju. Interligados entre si, o Thales Ferraz e o Antônio Franco alojam alguns restaurantes populares, lojas de artesanato, lojas de ervas e também empórios (chamados de laticínios), que vendem queijos típicos da região, como o de coalho e o requeijão do Nordeste, além de manteiga, doces, castanhas, cachaças e licores artesanais, como o de jenipapo, o meu preferido.
Mercado Albano Franco: Av. Antônio Cabral, 177, Centro – Aracaju – SE.
Horário de funcionamento: de segunda-feira a sábado, das 6h às 18h; aos domingos, das 6h ao meio-dia.
Nossa amiga Adriana Manfredini, jornalista de texto impecável e apreciadora da boa gastronomia, esteve recentemente na capital sergipana. E o melhor de tudo é que ela fez questão de nos contar os detalhes de sua incursão pela culinária local. Sintam-se convidados a conhecer (ou relembrar) algumas delícias do Nordeste brasileiro.
Um dos primeiros locais que costumo visitar em uma cidade é o seu mercado, para conhecer as cores, os aromas e os sabores típicos da terra. Em Aracaju, onde estive por nove dias a passeio, fui três vezes no Mercado Central, na verdade um complexo formado por três mercados.
Na parte das frutas, que fica no Mercado Albano Franco (a unidade que concentra o comércio hortifrutigranjeiro, de cereais e de carnes), os corredores recendem a mangaba, umbu, acerola, tamarindo, graviola, jenipapo e, é claro, caju – fruta esta que é símbolo da capital sergipana. Dizem que Aracaju significa “cajueiro dos papagaios”.
(Mangaba)
(Acerola)

(Jenipapo)
Nas barracas do mercado, compra-se de quatro a seis cajus por R$ 1. Se a intenção for experimentá-lo in natura, é melhor escolher o que estiver mais maduro, para não amarrar tanto a boca. Na dúvida, peça orientação ao vendedor.
Além do conhecido suco, o caju rende um excelente doce em calda, carnudo e levemente ácido, que eu já tinha experimentado em outras viagens ao Nordeste. Desta vez, conheci uma outra variação: o caju-ameixa, que pode ser comido só, acompanhado de creme de leite ou de que mais a imaginação inventar, inclusive para rechear assados. Eu mesma comprei um pote de caju-ameixa (R$ 3,50) para servir com sorvete de creme.
Como o próprio nome faz referência, o aspecto e o modo de preparo lembram o da ameixa seca. Há ainda as balas de caju, que são docinhos à base da fruta polvilhados com açúcar cristal, vendidos a granel ou em saquinhos com 20 a 30 unidades, dependendo da banca. Uma ótima opção de presente, a um custo de cerca de R$ 3 a R$ 5, conforme o tamanho da embalagem.

Do caju também se aproveita – e como! – sua castanha. Além daquela torrada e salgada que estamos mais acostumados a ver, encontrei outras opções no Mercado Central. Uma delas é a castanha de caju natural, sem sal, torrada apenas uma vez, muito apreciada pelos sergipanos e, pelo que consta, o tipo mais vendido no mercado. O quilo varia de R$ 9 a R$ 13. Experimentei em diversas barracas, mas achei seu gosto inferior ao da castanha torrada, esta encontrada a R$ 14 o quilo. Talvez seja o hábito, não sei. Também não me empolguei muito com as castanhas doces, tanto a com cobertura de açúcar caramelizado como a de chocolate. Mas vale experimentá-las e até comprar umas para petiscar no hotel, naquela hora em que dá vontade de comer alguma coisinha doce.

A macaxeira – ou mandioca ou aipim – é outra presença marcante no mercado. Afinal, é base para diversos pratos nordestinos e serve de acompanhamento do café da manhã ao jantar do sergipano. Sem dúvida, foi o alimento que mais consumi nos noves dias em Aracaju. Farinha, farofa, pirão, quitutes à base de tapioca ou de massa puba, porção de macaxeira frita na praia, macaxeira cozida no café da manhã e no lanche da tarde, macaxeira ao forno com carne de sol, bolo de macaxeira.
Este último, aliás, foi uma novidade para mim. Já tinha experimentado alguns bolos de mandioca em São Paulo, mas nenhum se comparou aos que tive a oportunidade de degustar em Aracaju.
O primeiro foi no próprio Mercado Albano Franco, no box 30, encontrado a R$ 0,50 o pedaço, em quase todos os dias. Consistente, encorpado, quase um pudim dourado, com gosto realçado de mandioca e de coco, uma delícia para acompanhar um café coado na hora.


O segundo, com castanhas de caju, comi-o em um quiosque no shopping. O terceiro, o melhor de todos, foi-me servido na casa de uma família sergipana, no café da tarde ao qual fui convidada a participar. A dona da casa fez o bolo de macaxeira especialmente para mim, depois que soube que eu tinha adorado o bolo do mercado. Ela me passou a receita: macaxeira bem ralada, leite de coco (de preferência, feito em casa), manteiga, açúcar, sal, cravo-da-índia e ovo.
Da macaxeira, extrai-se o polvilho ou a goma da tapioca. Dessa fina fécula, faz-se outra infinidade de guloseimas: mingau, pudim de tapioca, beiju (também conhecido como tapioca), beiju molhado (servido frio sobre a folha da bananeira), etc, etc.
Já a massa puba, que resumidamente é a tapioca úmida e fermentada, é ingrediente para quitutes como o bolo de massa puba e o pé-de-moleque, que não tem nada a ver com o docinho à base de amendoim que comemos nas festas juninas.
Seu homônimo nordestino é feito com massa puba, açúcar, sal, coco ralado e cravo, sendo a mistura embalada em folha de bananeira e assada no forno. Em Aracaju, o pé-de-moleque é vendido no Mercado Central, nas ruas e até nos supermercados entre R$ 1 e R$ 2, a unidade. Eu experimentei alguns, inclusive caseiros, e não apreciei muito. Pareceu-me uma goma meio sem graça, comida de doente, se é que me entendem.
Rivalizando com a macaxeira no prato dos sergipanos, há o inhame, comido cozido como acompanhamento nas refeições principais, inclusive no café da manhã. Um detalhe curioso: o tubérculo vendido em Aracaju como inhame é o que conhecemos em São Paulo como cará. Já o nosso inhame é o cará deles. Pelo menos foi o que me disseram.

O relato da Adriana sobre o Mercado Central de Aracaju continua no próximo post.