A cozinha deliciosa e sem frescura do Sinhá
Nem sempre a gente consegue escrever logo sobre os locais visitados. Excesso de trabalho, cansaço, preguiça, tudo isso faz com que os posts às vezes se acumulem. Pra resumir a história, um dos lugares que há tempos figura em nossa lista de pendências é o Sinhá.
Nossa relação com o restaurante começou bem antes de irmos até lá. Faz muito tempo que somos leitores do blog Boteco do JB, de autoria do chef Julinho, fundador do Sinhá. No site – se é que alguém não sabe – ele expõe tudo o que pensa sobre o cenário da gastronomia. Combate com acidez nada moderada os vícios da crítica especializada, as afetações gastronômicas, os chefs midiáticos… Nem sempre concordamos com tudo, é óbvio, mas é impossível não perceber nos textos reflexões lúcidas e pra lá de necessárias.
Éramos leitores assíduos do blog do dono do Sinhá, mas ainda não tínhamos frequentado o restaurante. Pra falar a verdade, havia certa dúvida, com ares de desconfiança: conseguiria o chef servir, em seu restaurante, comida digna das avaliações rigorosas feitas sobre o trabalho de outras casas? Só tiramos a prova meses atrás, quando fomos lá pela primeira vez, na companhia de um casal de amigos frequentadores. Em alguns minutos percebemos que sim, é possível. O Sinhá é totalmente fiel à proposta de oferecer comida boa e sem frescura, exatamente como prega o JB.
Tudo é servido em sistema de buffet livre, com a possibilidade de se servir quantas vezes quiser pagando R$ 27,50 de segunda a sábado e R$ 34 aos domingos, preços módicos em uma cidade de gastronomia inflacionada como São Paulo.
Em nosso debute no Sinhá – e também nas outras três vezes em que almoçamos lá – iniciamos a refeição pelo pão de tapioca. Leve, saboroso e ainda melhor na companhia do chutney de tomate. Um começo muito melhor do que diversos couverts com preços exorbitantes servidos por aí em restaurantes à la carte.
Na mesa ao lado ficam as saladas, um dos pontos altos do Sinhá. Há um tempo o JB chegou a divulgar no Twitter o contato do fornecedor de hortifrútis, segundo ele o mais competente encontrado desde que ingressou no segmento. Elogio dos mais justos, posso garantir. Almoço quase todos os dias em restaurantes com sistema de buffet e raramente encontro verduras e legumes tão frescos. Entre as opções, destaque para marinada de legumes, quinua e vagem com gorgonzola.
Antes de chegar com tudo nos pratos quentes, vale uma pausa para petiscar uns chips de abobrinha. Pra mim, é nos detalhes que um restaurante deixa de ser “correto” pra se tornar um local onde quero voltar. E o chips é bom exemplo disso, afinal, nada mais é do que o legume cortado bem fininho, frito e revestido por uma camada de sal. O detalhe aqui é transformar algo simples assim em um petisco sempre crocante e delicioso! Prefiro aos disputados torresmos, outra boa pedida.
Os pratos variam de acordo com o dia da semana e uma dica é consultar o site do Sinhá para conhecer o cardápio. Aos sábados, uma das opções é a ótima feijoada.
A galinhada com mandioquinha também é muito bem feita, assim como o tomate assado com gema de ovo, a banana-da-terra com bacon, o nhoque de mandioquinha, e por aí vai. Em todas as visitas provamos comida deliciosa e esperamos que continue assim. Digo isso porque na semana passada o JB anunciou a venda do Sinhá. Pelo que escreveu, vai dar um tempo, passar por aquele processo que costumam chamar de “não fazer nada”, algo que costuma dar mais certo do que muita coisa que a vida nos força a fazer por obrigação. A boa notícia para os clientes é que a Talitha, nova proprietária, já comanda a cozinha do restaurante. A qualidade, portanto, tem tudo para ser mantida.
Como clientes eventuais, o principal desejo da Débora e meu é que a casa continue com o cuidado habitual na confecção das sobremesas. O Tiramissú de Rapadura (R$ 6), por exemplo, é muito, muito bom. Mas a razão desse comentário é a irresistível mousse de chocolate (R$ 6)! Tenho uma relação antiga com essa sobremesa que quase todo mundo pensa saber fazer. Provo mousse de chocolate por aí desde criança e, hoje, raramente me empolgo com alguma versão do doce, já que a maioria tem gosto de ovo, textura estranha ou – mais comumente – é feita com chocolate ruim. A do Sinhá é absolutamente perfeita. Tanto que, quando estivemos em Paris – viagem sobre a qual postaremos em breve –, provei umas cinco versões da sobremesa clássica. Dava duas colheradas e a Débora já me olhava perguntando: “e aí, melhor do que o do Julinho?”. Encontrei só dois no mesmo nível. Nada além disso.
Sugestão do chef: O ambiente é simples, a comida não tem frescura, a cerveja é servida em copo americano e a refeição não termina com Nespresso, mas com um excelente Fazenda Pessegueiro. Assim é o Sinhá, um restaurante tratado sem a devida deferência pelos guias e publicações especializados, que deixam de informar seus leitores sobre uma das casas onde o dinheiro de quem gosta de sair pra comer é mais valorizado nesta cidade.







Queridos, que susto tomei outro dia, quando li o post no Boteco do JB! Pensei imediatamente no pãozinho de tapioca com chutney de tomate e na mousse de chocolate… quase chorei. Depois a notícia reconfortante de que o Sinhá continua em ótimas mãos para a alegria de quem sabe apreciar uma comida caprichada, com ótimos ingredientes, num ambiente simples e agradável. Não vejo a hora de poder ir ao Sinhá novamente !
Cecília,
Imaginamos o susto, afinal você é uma das responsáveis por nos levar ao Sinhá. Quando você e o Tony estiverem por aqui, almoçaremos lá de novo!